O Palácio de São Cristóvão |
![]() O Palácio de São Cristóvão em meados do século passado Gravura reproduzida do álbum do Barão de Planitz mostrando a residência imperial na Quinta e vendo-se ao fundo a Serra da Carioca. |
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PAÇO DE SÃO CRISTÓVÃO Pouco tempo depois da trasladação da família real para o Rio, um rico comerciante português, Elias Antônio Lopes, pôs à disposição de D. João a sua bela casa de campo. A Chácara do Elias, situada em S. Cristóvão. Era a Quinta da Boa Vista, no tempo "a melhor e mais ampla" de quantas vivendas no mesmo gênero existiam nos arredores da cidade. D. João gostou muito do presente, e dêsse sítio, fora do bulício do centro, e cercado de grande parque por onde serpeavam águas cantantes, fez a sua residência preferida, indo aí instalar-se com três de seus filhos, D. Miguel, D. Pedro e D. Maria Teresa. Dona Carlota Joaquina, alegando as maiores facilidades que encontraria, em ponto mais acessível , para a educação das filhas menores que ficavam em sua companhia, deixou-se estar no Palácio da Praça do Carmo. Entretanto, aquela alegação seria apenas uma desculpa com que esconderia as desinteligências do casal, uma vez que ela não esquentava lugar e, a pretexto de mudança de ares, arranjou logo várias moradias de recreio e ora estava na Praia de Botafogo, esquina do Caminho Novo, ora em Mata-Porcos, ou ainda em Laranjeiras ou no Andaraí. A mudança do Príncipe Regente para a Quinta muito concorreu para o desenvolvimento levado ao bairro de S. Cristóvão e zonas adjacentes. Até então a cidade quase que só se estendia até o Rossio Pequeno, depois Praça Onze de Junho. Daí por diante, no que começava a ser a Cidade Nova, ainda predominavam os alagadiços. Afora as comunicações marítimas, por barcos e canoas que partiam de vários pontos do centro e eram os mais procurados, dois caminhos levavam ao local. Um deles, o mais curto, era o chamado Caminho dos Lanternas, apenas uma estreita língua de terra através de extenso mangue. O nome lhe veio de uma fieira de lampiões fincados à sua beira e que, à noite, indicavam as pranchas de madeira por onde deveriam correr os coches reais. Quanto ao outro, muito mais longo porém mais cômodo e pitoresco porque se fazia sempre por terreno enxuto e verdejante, partia de Catumbi e fraldejava os morros. Todavia, pela rapidez do trajeto, era aquele o preferido e passou a ter um enorme trânsito desde que a Quinta se transformou em Palácio de S. Cristóvão. Apenas quem o procurasse sem poder dispor de sege, traquitana ou outra qualquer viatura, mas quisesse lá chegar, ao beija-mão do soberano, em certo estado de decência e sem se apresentar com o calçado totalmente enlameado, havia de palmilhar o aterrado de meias e botas à mão, até que, findo o tremedal, de novo as pudesse enfiar, depois de ter lavado os pés no ribeirão Maracanã. Aliás, o próprio D. João se preocupava em melhorar e valorizar as zonas de acesso ao novo Paço e mandou que se concedessem determinadas vantagens aos que tomassem a iniciativa de construções nos lugares pantanosos da Cidade Nova. Todavia, a despeito dos percalços daquela via quase intransitável, o Palácio de S. Cristóvão já era a Versalhes tropical, como lhe chama Oliveira Lima, e para visitá-la e cortejar-lhe a figura real, talvez farejando um título ou uma venera, então distribuídos às mãos-cheias, vinham de onge, de Minas, de São Paulo e de toda parte, os grandes senhores da terra. À Quinta, à simples Chácara do Elias, não bastavam um portão com as armas reais, nem algumas adaptações internas com ornamentação mais rica, das dependências reservadas à Sala do Trono e Sala do Conselho, para que se transformasse na Versalhes brasileira e, assim, a pouco, por sucessivas reformas, foi se adaptando às suas novas funções e adquirindo linhas de maior nobreza.Fez-lhe novas obras, em 1810, quem já se incumbira das primeiras, Manuel da Cunha, a fim de prepará-la para o casamento do Príncipe D.Pedro Carlos com a filha mais velha de D.João. Seis anos mais tarde, sujeitou-a a outra reforma, emprestando-lhe a feição gótica, um casamento de D.Pedro, ao qual se destinou um apartamento especial. Essas obras, porém, não chegaram a ser terminadas e apenas foi ser acrescidos aos ângulos do edifício. Pouco depois, ainda uma vez, coube a Manuel da Cunha prosseguir na reconstrução iniciada, o que fez dando-lhe de novo o antigo caráter português, mas com certos toques de influência árabe, conforme observa Debret. Nessa ocasião foi refeita, em semicírculo, a escada dupla, que levava à galeria, e modificou-se por completo a decoração das salas. Manuel da Cunha morreu quando se terminavam os alicerces do segundo pavilhão, complemento da fachada principal do palácio. E veio a vez de Pedro José Pézerat, um artista francês especialmente contratado por D.Pedro para continuar o trabalho começado por Manuel da Cunha. Pézerat era hábil e revelou-se digno do que lhe fora confiado. Além de concluir o pavilhão iniciado e paralelo ao antigo, no que pode realizar demonstrou a felicidade do seu plano, inclusive, o belo delineamento do parque, ao tempo protegido por aquele gradil, semelhante ao de Sion House, e que a D.João fora oferecido pelo Duque de Northumberland. Mas, por aí, já se estava em 1831, quando o Imperador deixou o Brasil e Pézerat partiu para a França. A Quinta da Boa Vista, desde 1810, era bem maior do que a antiga Chácara do Elias. A ela, por aquisição pública, se tinham incorporado duas outras chácaras e alguns terrenos vizinhos. |